Cultura

Revolta dos Malês completa 191 anos

Levante liderado por africanos muçulmanos marcou a luta contra a escravidão no século XIX.
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Vinícius

Redator

Nacional

Há 191 anos, acontecia em Salvador uma das mais importantes revoltas da história do Brasil. No início do século XIX, a capital baiana era uma das maiores cidades do país e tinha uma população majoritariamente negra, dos cerca de 65 mil habitantes, quase 40% eram escravizados e, somados aos negros libertos, formavam ampla maioria. A cidade vivia sob um sistema marcado pela violência e pela negação de direitos, desde o começo do século, diversas rebeliões já haviam ocorrido, porém em menor escala, já que a população era marcada por divisões étnicas, religiosas e culturais, o que dificultava uma união ampla contra o sistema escravista.
Os protagonistas desse levante histórico ficaram conhecidos como “malês”, africanos muçulmanos, em sua maioria das etnias nagô e hauçá, que preservavam sua fé e sua cultura. Muitos eram alfabetizados em árabe e mantinham sistemas para ensinar outros negros a ler e escrever. A revolta foi articulada por cerca de 600 participantes, liderados por Ahuna, Pacífico Licutan, Sule, Dassalu, Gustar, Manoel Calafete, Luís Sanim e Elesbão do Carmo, conhecido como Dandará. O objetivo era lutar contra a escravidão, defender a liberdade religiosa, conquistar autonomia e, segundo registros históricos, também libertar Pacífico Licutan, preso cerca de dois meses antes.

Na madrugada de sábado para domingo (25 de janeiro), os malês saíram às ruas vestidos de branco e portando amuletos religiosos. O plano, porém, foi comprometido após denúncias às autoridades, que se anteciparam e organizaram a repressão. Confrontos ocorreram em diferentes pontos da cidade, mas a reação foi rápida e violenta. Sem apoio externo e enfrentando forças superiores, o movimento foi derrotado em poucas horas. O saldo foi trágico: dezenas de mortos, centenas de presos, punições com açoites, deportações e a execução de quatro envolvidos.
Por muito tempo, essa revolta foi tratada como um episódio secundário, vítima do apagamento histórico que minimizou a força da resistência negra no Brasil. Ainda assim, a Revolta dos Malês deixou uma marca duradoura, mostrando que a escravidão era um sistema instável e constantemente desafiado. Esse passado ganhou representação no cinema com o filme “Malês”, lançado em outubro de 2025, que retratou esse marco histórico.

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