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Autor de “A Nobreza do Amor”, Elísio Lopes Jr. aposta em fábula afro-brasileira na TV

Em entrevista ao Lista Preta, roteirista fala sobre representatividade, realeza africana e o impacto de uma princesa preta no imaginário brasileiro.
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Vinícius

Redator

Nacional

Roteirista baiano e vindo do teatro, Elísio Lopes Jr. se prepara para estrear sua segunda novela na TV Globo. Em “A Nobreza do Amor”, criada ao lado de Duca Rachid e Júlio Fischer, ele aposta em uma fábula afro-brasileira que mistura história, fantasia e elementos da cultura africana e nordestina. Em entrevista à Lista Preta, o autor fala sobre representatividade na teledramaturgia, o peso simbólico de ocupar o lugar de roteirista e a importância de ampliar os imaginários possíveis para o público negro.

Entrevista

Como surgiu a ideia de misturar história e fantasia em uma narrativa sobre realeza africana em “A Nobreza do Amor”?

R: Primeiro é um prazer estar aqui falar com a Lista Preta pelo trabalho que vocês fazem. Essa novela é a minha segunda novela. A primeira foi “Amor Perfeito“, que eu assinei a autoria junto com Duca Rachid e Júlio Fischer. Depois dessa novela a gente continuou com o desejo de desenvolver novas histórias juntos.

O assunto que me move, que me mobiliza, é a representatividade. Eu quero desenvolver histórias nas quais eu me veja contextualizado e onde eu exercite a minha humanidade, não o que os outros pensam a partir dos nossos corpos e da nossa existência preta.

Eu sou pai de três meninas pretas e há muitos anos eu tenho um sonho de pai: que a nossa teledramaturgia espelhe a nossa nobreza, a nossa riqueza. Então essa ideia vem do nosso desejo de falar sobre realeza africana, que é um elemento decisivo no desenho da identidade brasileira.

A gente chama “A Nobreza do Amor” de uma fábula afro-brasileira, porque ela mistura dois universos muito próprios da minha existência: o continente africano e o Nordeste. Eu sou um autor negro, nordestino, nascido na Bahia, e convivo com essas referências de matriz africana desde muito cedo. Então o que o público vai assistir é uma história lúdica, ficcional, mas que também desenha muito da nossa realidade enquanto construção de identidade.

Você é um dos poucos autores negros com destaque na dramaturgia atualmente. Como enxerga o impacto simbólico de ocupar esse espaço e o crescimento de outros autores negros?

R: Não me orgulha o título de único, nem de primeiro, porque isso só denota o tamanho do buraco que a gente ainda tem de representatividade e o quanto a gente precisa caminhar. Tem muitos autores pretos talentosos nesse país que ainda não tiveram a oportunidade de estar no lugar que eu estou.

Ao mesmo tempo, sabendo de onde eu venho e da história que eu construí, eu me orgulho muito dessa caminhada. Eu sou um cara que começa no teatro baiano, escrevendo espetáculos de teatro infantil, depois teatro adulto, depois direção e audiovisual. Eu tive ali do meu lado uma geração do teatro baiano que não se contentou com pouco: pessoas como Lázaro Ramos, Wagner Moura, Emanuelle Araújo, Fábio Lago, entre tantos outros que avançaram do palco para o audiovisual.

A escrita é um lugar muito difícil, porque é um lugar de decisão de conteúdo, de construção de narrativa. Estar com a caneta na mão e poder dizer “esse conteúdo vai ao ar, esse conteúdo não vai ao ar” é quebrar um pouco essa estrutura que diz qual é a posição que a gente deve ocupar a partir da nossa cor da pele. Eu também entendo que muitos vieram antes de mim abrindo caminhos: artistas como Grande Otelo, Léa Garcia, Zezé Motta, Milton Gonçalves e Antônio Pitanga. Eu sou um dos capítulos dessa história e espero que depois de mim venham muitos outros autores pretos comandando narrativas no Brasil.

Você vem do teatro e também trabalha com audiovisual. O que é mais desafiador nesses formatos?

R: Sem dúvida a novela é o formato mais desafiador. Imagine que a gente está falando de 180, 190, 200 capítulos de conteúdo, com mais de 70 personagens e muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo. Cada capítulo tem cerca de meia hora no ar, mas leva quatro ou cinco dias de trabalho para ser escrito. É uma escrita muito estrutural, em que a carpintaria narrativa às vezes é até mais importante do que as próprias palavras.

Então entender essa indústria e manter o encanto, a magia e o lúdico durante toda essa estrutura é muito desafiador. Mas acima desse desafio técnico existe outro: transitar entre teatro, streaming e TV aberta trazendo a potência da narrativa preta para o primeiro plano.

Ao escrever a novela, vocês já imaginavam o elenco que hoje faz parte da produção?

R: Quando a gente começa a escrever, a gente também começa a sonhar. À medida que os personagens vão ganhando identidade, fala e cena, você começa a ver rostos. Nós três sugerimos alguns nomes e sonhamos com certos atores, mas essa escolha vai muito além da decisão do autor. O diretor da novela, Gustavo Fernandes, que eu costumo dizer que é o “quarto autor da novela”, tem um papel fundamental nisso.

A gente detalha muito os personagens e o perfil deles, mas a palavra final sobre o elenco acaba ficando com o diretor, que é quem vai conduzir essa grande produção.

Que impacto você espera que a novela tenha no público, especialmente entre os mais jovens?

R: Normalmente a gente fica com muita expectativa antes da estreia, se o público vai gostar ou não. Mas nessa novela eu estou absolutamente confiante, porque eu sei da nobreza do meu povo e o quanto a gente esperou para se ver na tela. Existe um valor simbólico muito grande quando você coloca no imaginário brasileiro uma princesa preta. Uma princesa que fala português, que é linda, valente, corajosa, inteligente, que ama e defende seu povo.

Esses são valores que toda mãe e todo pai querem passar para seus filhos. Agora a gente pode contar com uma princesa preta vivendo essa potência na televisão, a nossa princesa é alguém que se parece com a gente e diz coisas que estão de acordo com a nossa referência cultural.

Para terminar, que obras você recomenda para quem quer conhecer referências importantes para você?

R: A primeira obra que eu gostaria de indicar é o livro “Torto Arado“, de Itamar Vieira Junior. É um livro muito importante e que eu tive o prazer de levar para os palcos em formato de teatro. Eu acho que ele fala muito sobre a nossa alma e sobre a nossa existência.

Também gostaria de indicar “Um Defeito de Cor“, de Ana Maria Gonçalves. Eu acho que é um clássico da literatura brasileira e uma obra que precisa ser lida pela referência histórica e pela força da escrita.

E um terceiro livro que eu deixo como dica é “Americanah“, de Chimamanda Ngozi Adichie, que também fala muito sobre identidade e experiência negra. E para assistir só “A Nobreza do Amor”, de segunda a sábado, às 18h30 na TV Globo, a partir do dia 16.

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