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Lázaro Ramos reflete sobre os 20 anos do “Espelho” e a força da arte como instrumento de transformação

Em entrevista ao Lista Preta, ator e apresentador fala sobre a nova temporada do programa, sua trajetória entre arte e ativismo, momentos marcantes da carreira e o compromisso com a valorização da história negra na televisão brasileira.
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Vinícius

Redator

Nacional

Há duas décadas à frente do programa Espelho, no Canal Brasil, Lázaro Ramos construiu um espaço fundamental para o diálogo, a memória e a valorização da cultura negra no país. Em meio à comemoração dos 20 anos da atração e à estreia de uma temporada especial, o artista conversa com o Lista Preta sobre os bastidores do projeto, sua formação política e artística, os desafios do ativismo, os caminhos do cinema brasileiro e os encontros que marcaram sua trajetória.

Entrevista

Espelho tá comemorando 20 anos e volta com essa temporada especial dia 30 de janeiro, queria que você contasse sobre as novidades dessa nova temporada. Quem são os convidados, quais as entrevistas mais te empolgaram… enfim.

R: Eu não posso responder isso sem falar de algo que a gente celebra nessa temporada e que tem a ver com, por exemplo, o veículo do qual você faz parte. Porque lá atrás, há 20 anos atrás, quando a gente começou a fazer o espelho, era uma voz solitária ali. Imagina, na televisão, na TV aberta, na TV fechada, não tinha um lugar que pensasse a história preta, as nossas personalidades negras, os nossos intelectuais negros tendo um espaço de fala na TV com respeito, falando de temas que não estavam sendo discutidos.

Então, isso lá atrás, a nossa equipe começou. Hoje em dia, a gente tem como celebrar isso também, porque a gente tem vários veículos como o seu. Então, por exemplo, essa é uma das coisas que me alegra muito.

O primeiro programa é com a Zileide Silva e a Kenya Sade, e a gente faz um retrospecto um pouco do jornalismo, e que é um lugar de informação tão importante. Então, essa parte de celebração dessa temporada me anima muito, e sempre com a perspectiva do tempo, em todos os temas que a gente trata, seja a música, seja a literatura, jornalismo, intelectualidade, política, a gente está fazendo uma reflexão sobre a linha do tempo, do que aconteceu com esses temas no Brasil ao longo dos 20 anos. Isso me deixa muito feliz, porque aí a gente consegue perceber o que a gente acertou, o que a gente errou e, principalmente, quais são as novas estratégias.

Você, como artista, sempre transitou entre esse papel de artista e ativista também, no sentido de defender as causas que você acredita. Eu acho que hoje existe um clamor, principalmente na internet, por posicionamento de artistas. Você acha que esse é o papel da arte e dos artistas?

R: Esse também é o papel da arte e também dos artistas, mas isso se junta com o papel cidadão. Não é só por ser artista, é por ser brasileiro, preocupado com o seu país. Eu preciso dizer que isso não é uma escolha minha, eu não tive essa possibilidade. Com 15 anos de idade, eu já estava na reunião do MNU escutando, entendendo sobre o meu povo. Eu, no bairro que eu morava, olhava para o lado e ouvia as questões todas. Eu, com 16 anos de idade, entro no O Bando de Teatro Olodum, esse grupo tão importante para pensar sobre as nossas questões, que já vem fazendo isso há 35 anos. Então, eu fui moldado nesse lugar.

A arte e o ativismo acabam que estão misturados. Eu acho que talvez o tempo foi passando e eu fui descobrindo linguagens diferentes. O “Medida Provisória” tem uma linguagem, o “Espelho” tem outra linguagem, o “Mister Brau” tem uma outra linguagem, o “O paí, ó”, naquela cena em que eu grito, tem uma outra linguagem. E aí é onde a arte me dá um pouco essa liberdade e que faz com que eu tenha também, nesse lugar, a minha profissão. Porque eu acho que o nosso ativismo é algo que a gente oferece para a sociedade. Mas, essencialmente, eu sou um ator e acho que eu tenho um privilégio, uma sorte, uma alegria de poder, em todos os meus trabalhos, encontrar linguagens diferentes que eu trate desses assuntos que são tão importantes para o nosso país.

O “Espelho”, eu tenho muito, muito, muito orgulho mesmo, porque eu acho que o “Espelho” é um programa que ele foi amadurecendo junto com a questão. E isso acaba que me influencia também. Eu aprendi muito no Espelho, porque, às vezes, quando você está fazendo arte e ativismo junto, existem alguns limites das características da profissão. E eu sou beneficiado por poder ter a arte junto para fazer isso. Tem gente que não tem essa parceira tão incrível e potente e poderosa que é a arte. Às vezes, tem um ativismo mais direto. Eu, não. Eu acabo transitando entre todas elas. E acho uma função super nobre e muito necessária.

Agora, claro, sempre se paga um preço por isso. Tem uma coisa muito curiosa que eu falo no “Na minha pele”, que é a quantidade de ativistas que eu acompanhei e que eu vi e que estavam oferecendo a sua vida para uma luta. E, às vezes, a sua vida pessoal e individual não tinha comida dentro da geladeira. Tem um capítulo no “Na minha pele” que eu falo muito sobre isso, desses conflitos entre o ativismo, o posicionamento e o seu trabalho, a sua profissão. Acho que o “Na minha pele”, que surge também do “Espelho”, junto com o “Espelho”, é um lugar que está aí para a gente refletir sobre essas questões.

Eu sei que são 20 anos e é muito tempo, mas eu queria que você lembrasse três momentos que te marcaram muito nessa jornada com o programa.

R: Um desses momentos é com Neusa Santos. Neusa Santos Silva. A última entrevista em vida que ela deu foi para o “Espelho”, uma entrevista marcante, que ela revê o “Tornar-se Negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social”, que é o livro dela que virou uma bíblia para os movimentos sociais, e que ela, durante muitos anos, não deu entrevista, e o último registro dela em vida está no “Espelho”.

Não tem como não falar da entrevista do Criolo, que é uma entrevista que virou meme, que todos os anos volta como se fosse uma entrevista inédita, com novas interpretações, mas é uma entrevista que acabou chamando atenção para esse programa, que está na TV por assinatura e que muita gente não conhecia. E que, a partir de um meme e de uma entrevista com o Criolo, as pessoas acabaram conhecendo outras entrevistas, outros programas e etc.

E a terceira para escolher é difícil, tá? É muito difícil para mim escolher. A terceira, eu acho que é um encontro, falar um pouquinho de arte, tem uma entrevista que foi feita coletivamente com Dona Léa Garcia, Taís Araujo, minha amada, meu amor, e seu Milton Gonçalves, nós três sentados juntos, conversando sobre a profissão, sobre a vida, sobre as estratégias, então acho que são três entrevistas importantes. Mas eu sou um pai que ama todos os seus filhos, amo todas as entrevistas.

Você vai ser homenageado junto com Taís no Festival de Cinema de Paris, e como é que isso chegou para você? Essa homenagem, esse momento, que você tem uma trajetória de clássicos como ator, mas nos últimos anos você também tem aí ingressado nessa empreitada como diretor.

R: Fiquei muito feliz, faz uns seis meses que eles entraram em contato, a gente não sabia se ia ter agenda, por causa dos compromissos, Taís no teatro, estreando o espetáculo, eu fazendo “A Nobreza do Amor”, felizmente deu e fico feliz e honrado por fazer parte desse movimento bonito que está acontecendo, da gente falar do nosso cinema, do jeito que a gente faz o nosso cinema para outros países, esses movimentos todos com Oscar, com os festivais, eu acho que faz parte disso também e eu estou animado para chegar lá e falar do nosso cinema que a gente tem feito, que a gente deseja, nossa linguagem e estar junto com Taís, que é a minha grande parceira de família e de vida e profissional vai ser lindo, estou honradíssimo.

Eu perguntei você falou que gosta de todos os filhos eu acho que essa vai ser difícil também, mas eu queria que você destacasse três filmes da sua carreira, seja como ator, como diretor.

R: Eu nunca faço isso, mas para você eu vou fazer, tá, Alexandre? Porque eu sempre digo que eu não quero brigar com os diretores que eu trabalhei e quero voltar a trabalhar para ninguém ficar com ciúme, mas não tem como eu não colocar “Madame Satã”, não há como “Madame Satã” não estar em qualquer lista ao longo da minha vida, não há como “O homem que copiava” não estar nessas listas assim, esses dois eu escolho com muita facilidade e tem um terceiro filme que ele foi muito pouco visto, ele internacionalmente ele viajou muito, foi muito celebrado, ganhou muitos prêmios mas pouca gente viu esse filme aqui no Brasil, é um filme que se chama “Tudo que aprendemos juntos”, ele é baseado na história da Orquestra de Heliópolis, é um filme lindo, muito bem filmado, muito emocionante, falando de temas que eu prezo muito e que tá nessa lista também mas isso não quer dizer que eu não ame “O paí, ó”, não quer dizer que eu não ame “Mundo Cão”, que eu não ame “O Beijo no Asfalto”, enfim.

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