Cultura

Mãe Carmen do Gantois, uma vida dedicada ao Candomblé

Ialorixá do Terreiro do Gantois desde 2002, líder espiritual faleceu aos 98 anos em Salvador.
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Vinícius

Redator

Nacional

Carmen Oliveira da Silva, conhecida como Mãe Carmen do Gantois ou Mãe Carmen de Oxalá, iniciou sua vida no Candomblé ainda na infância, aos 7 anos, sendo iniciada para o Orixá Oxalá, seu Orixá de cabeça. Nascida em 1926, porém registrada apenas dois anos depois, em Salvador, Bahia, ela cresceu imersa nas tradições religiosas da família, desde cedo aprendendo os ritos, cânticos e responsabilidades que a religião afro-brasileira exige.

Crescer no Terreiro do Gantois, uma das mais tradicionais casas de Candomblé do Brasil, significou para ela uma vida dedicada ao culto aos Orixás, aos estudos religiosos e ao compromisso com os valores sagrados que norteiam essa matriz espiritualista.
Ao longo de sua trajetória no Terreiro do Gantois, Mãe Carmen desempenhou papéis centrais desde sua juventude, absorvendo os ensinamentos de sua mãe, Mãe Menininha do Gantois, uma das ialorixás mais respeitadas da história do Candomblé, e também convivendo com sua irmã, Mãe Cleusa Millet. Após a morte de Mãe Cleusa, em 1997, foi Mãe Carmen quem assumiu, em 2002, o cargo de ialorixá do terreiro, dando continuidade à linhagem familiar que remonta às ancestrais fundadoras da casa. Com sabedoria e dedicação, ela guiou o Ilé Ìyá Omi Àse Ìyamáse (como é formalmente conhecido o terreiro) sendo guardiã dos saberes e práticas que preservam a ancestralidade africana no Brasil.

Mãe Carmen também foi reconhecida por sua influência cultural e religiosa. Recebeu a Medalha 2 de Julho pela Prefeitura de Salvador e o título de Grã Mestre Comendadora pelo Governo do Estado, além de ter sido agraciada com a Medalha da Diversidade Cultural da Unesco, reconhecimento pela preservação e promoção das tradições afro-brasileiras. Sua importância extrapolou o âmbito estritamente religioso, inspirando artistas, intelectuais e comunidades diversas, inclusive um álbum de homenagem, “Obatalá: uma Homenagem a Mãe Carmen”, reuniu músicos renomados nacionais em celebração à sua vida e ao Orixá Obatalá.
Nesta sexta-feira, 26 de dezembro de 2025, Mãe Carmen faleceu em Salvador, aos 98 anos, três dias antes do seu aniversário de 99 anos, encerrando um ciclo de mais de duas décadas de liderança espiritual no Gantois e deixando um legado profundo para o Candomblé e para a cultura brasileira. Sua morte ocorre justamente na última sexta-feira do ano, dia dedicado ao seu Orixá de cabeça, Oxalá, demonstrando as conexões entre sua vida, sua fé e sua missão no mundo. A partida de Mãe Carmen provoca comoção ampla, porque ela não foi apenas uma líder religiosa, mas um símbolo de resistência, continuidade e reverência à ancestralidade que molda o Candomblé e enriquece a diversidade religiosa do Brasil.

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