Esportes

Por que Bonaly foi punida pelo salto que hoje é celebrado?

Entre o veto de 1976 e a liberação em 2024, o mesmo salto que custou pontos a Surya Bonaly virou símbolo de inovação, escancarando como o reconhecimento mudam conforme quem executa o movimento.
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Vinícius

Redator

Nacional

A apresentação recente do patinador estadunidense Ilia Malinin, com um backflip nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, foi tratada como símbolo de ousadia e renovação da patinação artística. O movimento foi celebrado pelo público e pela mídia como sinal de evolução do esporte. No entanto, para muitos fãs, a cena despertou uma comparação inevitável com Surya Bonaly, que realizou o mesmo salto quase três décadas antes e foi penalizada por isso. Em 1998, nos Jogos de Nagano, ela executou o backflip mesmo sabendo que a manobra era proibida, em meio a lesões e fora da disputa por medalhas, transformando o gesto em uma forma direta de posicionamento diante do sistema.

Durante grande parte da carreira, Bonaly foi tratada como uma atleta “fora do padrão” da patinação artística. Seu estilo era marcado por potência, velocidade e dificuldade técnica, características frequentemente vistas como excessivas para uma modalidade que priorizava leveza e delicadeza. Em vez de ter esse diferencial valorizado, ela passou a ser alvo constante de críticas. Um juiz declarou publicamente que gostaria de vê-la “parar de saltar por seis meses para aprender a patinar”, sugerindo que sua excelência técnica não correspondia ao ideal estético esperado. Esse tipo de avaliação ajudou a propagar a percepção de que sua força física e sua postura competitiva eram tratadas como problema, não como mérito.

A própria International Skating Union contribuiu para esse cenário ao manter, desde 1976, a proibição do backflip, classificando o movimento como perigoso e inadequado ao estilo do esporte. Apenas em 2024 a entidade retirou o veto, transformando o movimento em elemento coreográfico permitido, escancarando o contraste entre gerações, aquilo que levou Bonaly à punição passou a render aplausos a Malinin. Agora Surya Bonaly vê a manobra que tirou pontos em sua apresentação ser celebrada como artifício artístico, quando em sua época ela recebia críticas por ser “física demais”.

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