Arte

O que o Afro Decor está dizendo sobre como queremos morar?

Pinterest e a busca por casas com mais identidade.

João Gabriel

Arquiteto e urbanista;

Arquiteto baiano (de Jequié, baseado em Vitória da Conquista) referência em inovação, representatividade e estética brasileira, com mais de 130 projetos e destaque em CASACOR, Casa Vogue e Forbes Life Design.

Nacional

O Pinterest Predicts costuma ser visto como um termômetro do que vai ganhar força no design e na decoração. A partir de milhões de buscas, ele transforma comportamento em previsão. Quando o Afro Decor aparece nesse relatório, muita gente entende isso apenas como uma nova estética. Eu prefiro enxergar como a consolidação de um movimento que já vinha acontecendo.
Em muitos países do continente africano, essa busca é direta. Há um movimento claro de valorização de referências locais, de materiais, símbolos e formas de morar que foram historicamente apagadas ou substituídas por modelos importados. O Afro Decor, nesse contexto, surge como afirmação. Como uma forma de dizer que a casa também é lugar de identidade.
No Brasil, esse movimento ganha outra camada. Somos um país afro-latino e indígena, marcado por misturas, cruzamentos e memórias diversas. Aqui, o Afro Decor não aparece como reprodução literal de uma África idealizada, mas como diálogo. Ele se mistura com a valorização da cultura indígena, com saberes ancestrais, com modos de fazer que atravessam o tempo e o território. E é importante dizer: não se trata de “fantasiar” a casa com estampas africanas ou objetos colocados apenas como decoração temática. O Afro Decor, quando faz sentido, está nas escolhas mais profundas. No mobiliário que carrega memória, no design que respeita formas e materiais, nas simbologias que ajudam a contar uma história sem precisar explicar tudo.
Essa abordagem muda a relação com o espaço. A casa deixa de ser um cenário neutro e passa a ser um lugar que reconhece quem somos, de onde viemos e o que queremos preservar. O Pinterest identifica esse desejo porque ele aparece nas buscas, nas referências salvas e nas imagens que as pessoas escolhem para se inspirar. É um movimento silencioso, mas consistente.

Talvez o mais potente desse momento seja entender que o Afro Decor não propõe um único caminho. Ele abre espaço para múltiplas narrativas. Para casas que falam de ancestralidade sem serem óbvias. Para projetos que trabalham identidade com cuidado, respeito e intenção.
No fim, o que essa tendência revela é simples e profundo ao mesmo tempo. As pessoas querem morar em espaços que façam sentido para suas histórias. E a arquitetura começa, lentamente, a escutar isso.

Sobre o Autor

João Gabriel

João Gabriel é arquiteto e urbanista, designer, educador, comunicador e colunista. Nascido em Jequié e sediado em Vitória da Conquista, atua do interior da Bahia para o Brasil e o mundo, consolidando um posicionamento de referência em inovação, representatividade e estética brasileira.

Reconhecido como um nome exponencial na arquitetura brasileira, integra o elenco da CASACOR, foi citado pela Casa Vogue entre os 50 arquitetos mais influentes do Brasil e foi destaque na revista duas vezes pela revista Forbes Life Design. À frente do JG+ Arquitetos, soma mais de 130 projetos realizados dentro e fora do país, unindo técnica, narrativa e propósito.

Em 2024, fundou a Sala Preta Mentoria, um espaço de formação e fortalecimento de arquitetos negros, que transforma trajetórias individuais em potência coletiva e consolida a diversidade como eixo central da arquitetura contemporânea.

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