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Salvador não é um paraíso racial

Salvador carrega consigo a magnitude de ser uma cidade negra cuja história e cultura resistiu e prevaleceu apesar do racismo. Mas não é um paraíso racial, e está longe de ser.  
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Alexandre Santana

Jornalista, editor-chefe e fundador da Lista Preta. Atua como creator nas redes desde 2019 pautando temas como cultura, negritude e autoestima.

Nacional

Salvador sempre foi uma cidade turística que, anualmente, recebe milhões de apreciadores de sua beleza e cultura — o que é positivo. Embora o verão na cidade seja o meu momento favorito do ano, existe uma noção equivocada que se apresenta de forma recorrente: a ideia ou a impressão parcial que muitos (inclusive pessoas negras de outros estados) têm sobre como o racismo opera na cidade.

Mas eu sou um jovem negro, nascido e criado na periferia, mais especificamente no bairro de Rio Sena onde toda minha família ainda reside. E é por isso que reafirmo que a Salvador que se apresenta para a maioria dos que passeiam por aqui é bastante diferente. E isso não pode ser esquecido! Por isso escrevo, para que pelo menos, quem vem conhecer a cidade saiba que ela é sim linda, mas também cheia de contradições e desigualdades ainda muito profundas.


Não me levem a mal: tudo o que dizem sobre Salvador ser a “Roma Negra” também é verdade. Amo esta cidade e entendo que ela carrega consigo a sensação de pertencimento e identificação, conectando-nos diretamente à nossa ancestralidade africana. A cultura que Salvador vive e respira é berço da música, da culinária, das festas populares e das tradições que formaram minha identidade e negritude.

Contudo, sem rodeios: Salvador não é um paraíso racial. Nesta cidade, ainda existe “lugar de preto” e “lugar de branco”. Nosso território é marcadamente dividido por questões de cor e classe em toda a sua extensão. Isso é nítido, notório e escancarado no cotidiano de quem vive aqui.

O Censo do IBGE de 2022 informou que os únicos dez bairros que possuem população majoritariamente branca são os que, coincidentemente, apresentam maiores índices de desenvolvimento e maior poder aquisitivo. Salvador também foi a capital brasileira com mais registros de mortes de homens negros em 2022. Já a Rede de Observatórios da Segurança apontou que a Bahia lidera o ranking de letalidade policial contra negros; em 2022, a cada 24 horas, quatro pessoas negras foram mortas pela polícia baiana, representando quase 95% dos óbitos causados por agentes policiais.


Salvador carrega consigo a magnitude de ser uma cidade negra cuja história e cultura resistiu e prevaleceu apesar do racismo. Mas não é um paraíso racial, e está longe de ser… Pelo menos, não enquanto todos os negros que aqui vivem e sobrevivem sejam devidamente emancipados.

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