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Festa da Boa Morte, conheça a história

Devoção de mulheres negras atravessou séculos e se tornou símbolo de fé, ancestralidade e resistência no Recôncavo Baiano.
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Vinícius

Redator

Nacional

Originada no bairro da Barroquinha, em Salvador, a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte está ligada a uma tradição católica dedicada à passagem de Maria, mãe de Jesus, da vida terrena para a vida eterna. O nome “Boa Morte” faz referência à chamada “dormição” de Nossa Senhora, uma tradição segundo a qual Maria teria encerrado sua vida terrena antes de ser elevada ao céu.
A devoção chegou ao Brasil a partir da tradição católica portuguesa e, na Bahia, ganhou novos significados ao entrar em contato com as religiões de matriz africana. Em Salvador, mulheres negras passaram a cultuar Nossa Senhora da Boa Morte na região da Barroquinha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. A memória preservada pelas irmãs relaciona essa devoção à busca pela liberdade e à esperança de uma morte digna para pessoas escravizadas, em uma época marcada pela violência da escravidão.

Foi nesse contexto que surgiu a Irmandade da Boa Morte, formada exclusivamente por mulheres negras. A irmandade cumpria funções de proteção e solidariedade, arrecadando recursos para comprar cartas de alforria, ajudando pessoas escravizadas e buscando garantir um funeral digno às próprias irmãs. Por volta de 1820, diante das perseguições às irmandades negras em Salvador, o grupo se transferiu para Cachoeira, no Recôncavo Baiano, onde a tradição se consolidou.

Em Cachoeira, a celebração passou a reunir os rituais católicos dedicados à morte e à glória de Maria com elementos da religiosidade afro-brasileira. A programação tradicional acontece entre 13 e 17 de agosto. O ciclo começa com homenagens às irmãs falecidas, seguido pela procissão da Boa Morte no dia 14 e, no dia 15, pelas celebrações de Nossa Senhora da Glória.
Mais de dois séculos depois, a Festa da Boa Morte continua sendo realizada em Cachoeira e se tornou um dos principais símbolos da cultura afro-brasileira na Bahia. A celebração foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado em 2010 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

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