Antes de se tornar Afreekassia, você começou sua vida intelectual cursando Relações Públicas. Como você escolheu o curso e onde surgiu essa vontade de estudar Relações Públicas, sabendo que hoje você segue uma carreira bem diferente?
R: Eu venho de uma família que a minha mãe sempre priorizou muito estudo, né? Eu sempre fui bolsista, desde quando eu era criancinha. Sempre estudei em escola particular dentro desse recorte, assim. Para minha mãe, eu tinha que fazer uma faculdade. Então eu falei: “Cara, já que eu vou ter que fazer, eu vou escolher algo que me permita trabalhar com coisas diferentes, porque eu ainda não sabia exatamente o que eu queria”. Fui direto da escola pra faculdade. E, apesar de tudo, hoje eu vejo que muitas coisas do que eu faço têm, sim, muito a ver, porque Relações Públicas trabalha com imagem, né? Comunicação como um todo. Então isso faz com que eu enxergue minha carreira como um produto, sabe? Tem a Afreekassia que todo mundo conhece, mas tem a Cássia que tá ali por trás, mexendo todos os pauzinhos para conseguir fazer com que tudo funcione.
Sabemos que seu nome de batismo é Cássia, que até faz sentido com o nome artístico Afreekassia, mas li que existe um significado de verdade sobre ele. É verdade?
R: Eu ficava estudando muito sobre África de uma maneira geral, assim. Até fiz coisa no meu quarto, pinturas, inventava um monte de coisa. E a minha mãe que veio com esse nome, assim. Eu falava: “Mãe, quero muito um nome criativo”. E aí ela falava: “Por que você não coloca Africássia?”. E aí, na época, eu escrevi de uma maneira normal, né? Africássia com C e África com I mesmo. E aí já tinha uma pessoa com esse nome. E eu era muito fã da Erykah Badu, gostava da grafia, aí eu falei: “Cara, eu acho que eu vou inventar alguma coisa”. E aí, conforme foi passando o tempo, eu fui descobrindo as brincadeiras que dá para fazer com o nome, sabe? Tanto esse lugar da liberdade, mas também tem o K na linguagem egípcia, que significa alma. Então tem esse lugar também, tem uma versão minha “A Free Cássia”, tipo uma Cássia livre, e eu só vim apaixonando mais pelo nome.
Nome definido, vieram os primeiros trabalhos e você furou a bolha de fato com “Sou + As Negras”. Como foi o processo de criação dessa faixa?
R: Foi uma música que eu comecei escrevendo um pouco na brincadeira, por incrível que pareça, porque São Paulo tinha muito esse lugar de muitas pessoas brancas querendo ser negras e etc. Começou muito nesse lugar, assim, de deboche. Só que, quando eu sentei para terminar de escrever a letra, eu fiquei: “Cara, é isso”. Ela fala tantas coisas sem falar muitas coisas. E eu estava em um momento que tive muitas decepções com mulheres negras. E aí eu acho que foi uma grande virada-chave para mim, de entender que, apesar de ter muita gente que errasse comigo, eu nunca ia deixar de ser mais as negras, sabe?
O projeto “Cacau 50%” veio depois de dois singles que adiantavam essa estética diferente dos anteriores, tanto nos visuais, letras e sonoridade. O que motivou essa mudança?
R: Eu já estava com uma vontade de expandir o público, porque, enfim, é legal toda essa questão afirmativa, mas eu falei: “Cara, eu preciso também mostrar que eu sei falar sobre outras coisas”. E aí calhou de fazer essas duas músicas. São coisas que, literalmente, é a minha vida acontecendo. Eu tinha realmente passado por um término e depois eu conheci realmente o menino do Rio de Janeiro. Eu ainda não tinha nome, não tinha ideia do que eu ia fazer especificamente, mas eu sabia que eu queria ir pro rap e também ir para esse lugar um pouco mais sentimental, sabe?
Sabemos que você é uma artista de poucos feats na carreira. No primeiro volume temos MC Luanna e, no segundo, Amanda Sarmento. Como é sua relação com feats?
R: A Luanna é uma pessoa que me enche o saco de feat há muito tempo. E, na época, eu não estava lançando música. Eu falei assim: “Cara, não, não faz sentido eu fazer agora”. Ela até ficou brava comigo na época, mas não tinha o que fazer. Para mim, feat é uma coisa que… Agora eu tinha muito essa preocupação de construir a minha identidade sem precisar estar ali me escorando em feat. Porque a gente vê isso muito, pessoas fazerem feat e aí depois você não sabe como é a pessoa, o que ela realmente faz. Eu queria conseguir construir o meu público, sabe? Então é algo muito proposital eu não ter feat. A Luanna realmente foi uma amiga que, quando eu terminei, ela sentou e conversou comigo e etc. Então não tinha como ela não estar nessa música. Tanto que ela não queria fazer essa música. Ela queria que a gente fizesse um feat falando sobre outras coisas, não sobre o relacionamento. Mas eu falei: “Amiga, você vai ter que escrever”.
Entre um volume e outro são oito meses de diferença. Como foi esse processo entre os dois?
R: Cara, foi muito gostoso, porque o volume um eu lancei totalmente independente, né? Então, do volume um pro volume dois, eu assinei com a Believe. Isso me permitiu ter uma outra estrutura de conseguir pensar as coisas com um pouco mais de folga e não só na guerrilha, sabe? Quando eu fiz o volume um, eu já sabia que queria fazer um volume dois, só que precisava escrever algumas coisas. Tiveram coisas que não couberam no volume um, principalmente nesse lugar de processo, que eu queria muito falar, porque esse projeto fala muito sobre amadurecimento. Tem falar do amadurecimento de trabalho mesmo, de confiar, de carreira e etc. Então o volume dois traz um pouco disso.
Para finalizar, quais são os artistas que Afreekassia mais ouve ultimamente?
R: Cara, eu não tenho como não falar da Tems. Eu evito até falar um pouco sobre ela, porque eu já fui a maior ouvinte da Tems no YouTube por dois meses seguidos. Tipo, recebi um selo, assim. Eu fiquei até com um pouco de vergonha. Eu tô numa pesquisa também muito de samba. Não sei se enquadra, mas eu tô ouvindo muito Bebeto. Gosto muito de Bebeto e esse período, assim, do samba, sabe? Samba-rock, coisas assim. E uma terceira pessoa, cara, eu vou colocar Jill Scott. Foi uma artista que influenciou muito e eu gosto muito do jeito que ela mistura R&B com rap, sabe? Como ela fala sobre o sentimento também de um lugar de quem não se faz de coitada. Ela é uma negra, então ela sente como uma negra, sabe? Então eu gosto muito disso. Então, como são só três, eu vou colocar esses três: Tems, Bebeto e Jill Scott.