A devoção chegou ao Brasil a partir da tradição católica portuguesa e, na Bahia, ganhou novos significados ao entrar em contato com as religiões de matriz africana. Em Salvador, mulheres negras passaram a cultuar Nossa Senhora da Boa Morte na região da Barroquinha entre o fim do século XVIII e o início do século XIX. A memória preservada pelas irmãs relaciona essa devoção à busca pela liberdade e à esperança de uma morte digna para pessoas escravizadas, em uma época marcada pela violência da escravidão.
Foi nesse contexto que surgiu a Irmandade da Boa Morte, formada exclusivamente por mulheres negras. A irmandade cumpria funções de proteção e solidariedade, arrecadando recursos para comprar cartas de alforria, ajudando pessoas escravizadas e buscando garantir um funeral digno às próprias irmãs. Por volta de 1820, diante das perseguições às irmandades negras em Salvador, o grupo se transferiu para Cachoeira, no Recôncavo Baiano, onde a tradição se consolidou.
Em Cachoeira, a celebração passou a reunir os rituais católicos dedicados à morte e à glória de Maria com elementos da religiosidade afro-brasileira. A programação tradicional acontece entre 13 e 17 de agosto. O ciclo começa com homenagens às irmãs falecidas, seguido pela procissão da Boa Morte no dia 14 e, no dia 15, pelas celebrações de Nossa Senhora da Glória.