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Contaminação seletiva: por que o racismo não contamina, mas as cotas sim?

Pedro Afonso Caires

Jornalista e pesquisador (UESC/CNPq). Militante da Unegro, integra o Grupo de Pesquisa Linguagem e Racismo (UFSB) e o Grupo de Pesquisa em Hierarquizações Étnico-Raciais, Comunicação e Direitos Humanos (UNEB).

Nacional

No dia 23 de agosto de 2026, o editor e diretor de cinema Miguel de Almeida publicou no jornal O Globo uma coluna intitulada “Obrigação do cumprimento de cotas contamina a sociedade”. Em cerca de seis minutos de leitura, o autor conseguiu condensar quase todos os lugares-comuns do repertório anti-cotas, desde a suposta “contaminação” até o apelo a uma falsa neutralidade, passando pela comparação rasa com os Estados Unidos e a velha pergunta sobre até onde as cotas vão chegar.

Escolher o verbo “contaminar” para descrever a obrigação de cumprir cotas está longe de ser um acaso. No imaginário de quem sempre ocupou os espaços de poder sem precisar dividi-los, a presença de corpos pretos, pardos, indígenas e trans onde “não deveriam estar” é lida como uma impureza. A violência estrutural que mantém negros e indígenas na periferia é naturalizada como ordem. A política que tenta reverter esse quadro é patologizada como vírus. O racismo não contamina, mas a reparação, sim. Essa inversão de polos é velha conhecida. Almeida pede que o debate seja conduzido “sem paixão”, como se a objetividade fosse um atributo natural de quem já está no topo. A exigência de moderação é um mecanismo clássico de silenciamento. Lélia Gonzalez já havia apontado isso ao falar do “racismo por denegação”. A neutralidade, nesse jogo, é sempre o ponto de vista de quem não é afetado pela estrutura.
O articulista cita os professores da Unesp que, com “humor”, perguntam se as cotas chegarão a pilotos de avião e generais. A pergunta é velha porque aparece toda vez que uma política de inclusão avança: primeiro foi contra a entrada de negros na graduação, depois contra a pós-graduação, depois contra os concursos. O que está em jogo não é o medo genuíno de uma expansão descontrolada, mas a recusa em aceitar que o racismo opera em todos os andares da sociedade.

A comparação com os Estados Unidos também não se sustenta. Almeida lembra que a Suprema Corte americana baniu o uso de raça como critério para admissões, mas omite que as políticas de legacy admissions, que beneficiam quase exclusivamente brancos ricos, seguem intactas. Lá, como aqui, o mérito é sempre mais flexível quando se trata de proteger privilégios.
O caso do Hospital Albert Einstein é particularmente revelador. O hospital alega já ter negros entre seus funcionários, mas “admitidos sob o critério da excelência”. Essa frase é um monumento à hipocrisia. Ignora que o próprio conceito de excelência é historicamente moldado para excluir corpos negros e periféricos. Falar em excelência sem reconhecer que o acesso a ela sempre foi racializado é, no mínimo, desonesto.

O grande silêncio do artigo de Almeida, e de tantos outros que atacam as cotas, é sobre o que acontece depois que o cotista entra. A crítica se concentra no ingresso, como se a universidade fosse uma porta que se abre e se fecha. Os dados, no entanto, contam outra história. Um estudo do Ipea publicado em 2024 avaliou o desempenho de alunos cotistas e não cotistas na Universidade Federal de Pernambuco entre 2018 e 2022. Os resultados são inequívocos: os alunos cotistas apresentam melhor desempenho no que se refere à formatura com atraso, à evasão e ao trancamento. A diferença nas notas do Enem, que tanto assombra os detratores das políticas afirmativas, simplesmente desaparece ao longo do curso. O Censo da Educação Superior de 2023 corrobora essa percepção: estudantes cotistas têm melhores resultados acadêmicos e concluem mais a graduação. Falar em permanência é recusar o debate rasteiro do ingresso para forçar uma discussão estrutural sobre o que a universidade deve fazer para reter esses corpos. A Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) é um avanço, mas ainda insuficiente. Não adianta abrir as portas se o aluno cotista chega à faculdade sem ter o que comer, sem lugar para dormir, sem creche para os filhos e sem acesso a atendimento psicológico que lide com a microagressão racial diária dentro da sala de aula.

Outro ponto que Almeida ignora é a diversidade de modalidades de ações afirmativas. Ao fixar-se nas cotas raciais, ele deixa de lado outras frentes igualmente importantes: cotas para pessoas com deficiência, para quilombolas, para indígenas, para pessoas trans. A ampliação do escopo para a pós-graduação e para concursos públicos é uma constatação de que o racismo não se limita à porta de entrada da graduação e opera em todos os níveis da vida acadêmica e profissional. As ações afirmativas são um conjunto de ferramentas para combater desigualdades estruturais em diferentes frentes. Vale parar um instante na frase “berimbau não é gaita”, que Almeida usa para introduzir os exemplos. Poderia ter escolhido qualquer par de instrumentos para dizer que as coisas são diferentes. Mas escolheu o berimbau, instrumento de origem africana, umbilicalmente ligado à capoeira e à cultura negra. A gaita, por sua vez, tem forte presença na música europeia e sertaneja. Mais uma vez a escolha não é inocente e revela um imaginário em que o berimbau figura como exótico, estranho, quase folclórico, enquanto a gaita soa familiar, normal.

Ao dizer que “berimbau não é gaita”, o autor não está apenas afirmando uma obviedade. Está operando uma hierarquia simbólica na qual o elemento de matriz africana é colocado como algo que precisa ser explicado, diferenciado, quase domesticado pela comparação com o instrumento europeu. É um gesto pequeno, mas profundamente revelador da lente pela qual se enxergam as políticas de reparação: como algo estrangeiro, deslocado, que não se encaixa na ordem natural das coisas.

É aqui que o texto de Tau Golin, “Os cotistas desagradecidos”, se torna uma ferramenta de análise indispensável. Golin inverte a lógica do discurso de discursos como o de Almeida ao lembrar que as elites brasileiras são elas mesmas produto de políticas de cotas: as sesmarias, as datas de terra, a imigração subsidiada de europeus. A parte rica do Rio Grande do Sul e de outras regiões do Brasil é o presente de cotistas do passado. O “esforço individual” tão celebrado pelos críticos das cotas é uma ficção. Ninguém se fez sozinho num país construído sobre a espoliação de indígenas e a escravidão de africanos e seus descendentes.

A verdadeira contaminação não vem das cotas. A verdadeira contaminação é a persistência de um modelo meritocrático que finge que todos partiram do mesmo ponto. É a naturalização da morte de jovens negros nas periferias, a evasão escolar silenciosa, a falta de saneamento e a fome estrutural. A política de cotas é apenas um emplastro sobre uma ferida gangrenada. O verdadeiro potencial das cotas está em transformar o presente para que, daqui a cem anos, não precisemos mais delas. Enquanto isso, o pânico moral contra as cotas é o medo de ter que dividir o espólio de um país que sempre foi construído com o suor e o sangue de quem hoje apenas pede passagem.

Sobre o Autor

Pedro Afonso Caires

Pedro Afonso Caires é jornalista e pesquisador (UESC/CNPq). Militante da Unegro, integra o Grupo de Pesquisa Linguagem e Racismo (UFSB) e o Grupo de Pesquisa em Hierarquizações Étnico-Raciais, Comunicação e Direitos Humanos (UNEB).

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