Como surgiu a ideia de revisitar o Batuk Freak com essa turnê?
R: Essa ideia veio dos fãs. O primeiro desejo realizado dos fãs foi em uma edição da Batekoo em comemoração aos meus 25 aos de carreira, e aí eles (Batekoo) falaram: ‘Por que não comemorar com o Batuk?’ e eu achei ótima a ideia. Até porque o ‘Batuk Freak’ foi o álbum que me abriu portas e possibilidades. Eu fiquei muito feliz de ver o quanto o público gostou dessa ideia, afinal de contas o ‘Batuk Freak’ é considerado até hoje um dos melhores e maiores álbuns de rap no Brasil. Então eu acredito que seja uma ótima forma de comemorar meus 25 anos de carreira.
Qual a importância deste projeto na sua trajetória e pra cultura urbana brasileira?
R: Eu acho sensacional o impacto que o ‘Batuk Freak’ tem nas gerações atuais, é um álbum que foi lançado em 2013 e de lá pra cá muita coisa aconteceu na música e na cultura brasileira. É muito prazeroso fazer parte de um movimento que se mantém de pé, né? Que é a música genuína, a música urbana intuitiva. Eu acho que o álbum é atemporal, e isso se deve à forma como foi produzido, a todo o talento do produtor, o Nave, e o meu talento também de escrever. Acho que é o álbum que traduz da melhor forma o jeito urbano de viver, então é um álbum que fala bastante coisa e pra mim vai ser um prazer revisitar no show essa energia.
Toda a estética e o discurso de autoafirmação que você construiu com ‘Batuk Freak’ acabaram fazendo de você um dos principais expoentes da chamada ‘Geração Tombamento’, um movimento de estética e empoderamento de jovens negros que adotavam cabelos coloridos, roupas afrofuturistas, entre outras referências. Esse movimento, inclusive, acaba de completar dez anos. Como você se sente sabemdo que contribuiu para isso?
R: Eu vejo com muito carinho e muito amor essa Geração Tombamento que eu encontro em todos os lugares. Encontro na publicidade, em shows, no aeroporto… É muita gente que eu conheço e pessoas muito mais novas do que eu, e elas falam: “Nossa, seu álbum me transformou.” E eu fico com vontade de chorar. Naquela época, eu tinha vinte e poucos anos, e tudo o que eu mais queria era tocar as pessoas com a minha arte, mostrar para elas um jeito novo de enxergar a vida. Eu descobri que existe uma forma de passar por essa parte dolorosa da sociedade brilhando, com o cabelo colorido e com as roupas estampadas. Eu acho que a rebeldia era o tempero dessa Geração Tombamento, e isso é muito bom.
Quais elementos você acha que fazem esse projeto ainda soar tão atual?
R: Eu acho que o segredo para me manter atual é estar em conexão, em constante movimento de evolução e disposição. Tem que ter disposição para evoluir. Acho que é isso que faz a minha música ser atemporal. E falar da verdade, daquilo que sinto e daquilo que vejo. São histórias reais, e acho que isso conecta com as pessoas, porque a música é a tradução dos sentimentos, e todo mundo sente, e sente muito.
Como você enxerga essa nova cena do rap feminino, muitas delas te tem como referência e agora parece que as mulheres finalmente estão ocupando um lugar de protagonismo dentro do gênero. Como é pra você perceber isso?
R: Eu sinto muito orgulho, sinto identificação, sinto respeito e amor. É muito bonito a gente passar anos desejando uma coisa e ela acontecer. Quando eu tinha meus 16 anos, queria muito que existisse uma cena tão plural de mulheres no rap, e era uma época em que poucas mulheres tinham o devido reconhecimento. Acredito que as mulheres no rap sempre existiram, não é como se elas só tivessem surgido depois. O que faltava era espaço, reconhecimento e mais respeito por elas. Na minha época, nos anos 1990 e 2000, era a Nega Gizza, Dina Di, Negra Li, RPW, Cris SNJ… Então eu estava sempre atrás dessas mulheres. Na minha geração teve eu, a Flora Matos, Stefanie, Drik Barbosa, Tássia Reis… Tinha várias. Por isso que eu não sou a favor da rivalidade feminina. Por conta da escassez da presença feminina que eu vivi no rap, hoje, que a gente tem essa pluralidade, eu só posso agradecer e achar sensacional.