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Bukassa Kabengele celebra momento em três produções no audiovisual

Com quase 40 anos de carreira, ator pode ser visto em “A Nobreza do amor”, “Dona Beja” e na série “Emergência Radioativa”, onde vive personagens distintos.
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Alexandre Santana

Jornalista, editor e fundador da Lista Preta.

Nacional

O ator Bukassa Kabengele vive um momento de grande sucesso em sua carreira. Atualmente no ar em três produções distintas, as novelas “A Nobreza do amor”, da TV Globo, e “Dona Beja”, na HBO Max, além da série “Emergência Radioativa”, da Netflix, ele mostra diferentes facetas de seu talento para o público.

Em “A Nobreza do amor”, trama das 18h da Globo, ele dá vida a José dos Santos, que é Zambi de nascimento e irmão mais velho de Lumumba/Cayman. Após uma visita ao Brasil, ele se apaixona por Teresa (Ana Cecília Costa) e abdica do trono de Batanga em favor do irmão mais novo. Em Barro Preto, trabalha como engenheiro civil e acolhe a sobrinha Alika (Duda Santos) e sua mãe Niara (Erika Januza).

“José/Zambi é príncipe, filho de Kayman I, seria o herdeiro e Rei do reino de Batanga na sucessão do trono. Mas se apaixonou por Teresa, uma plebeia, quando veio ao Brasil. Ele abdicou do trono e escolheu viver esse grande amor refugiado em Barro Preto. É um homem íntegro, altivo, engenheiro e entusiasta da ciência”, complementa o ator.

Bukassa destaca que para criar se inspirou em seu passado, ele é africano legítimo da República Democrática do Congo, nascido em Bruxelas, e chegou ao Brasil aos 10 anos.

“Minha criança interna e educação são africanas. Sou filho de um grande intelectual, o Professor Kabengele Munanga, antropólogo e professor titular aposentado na USP. Carrego esse DNA da africanidade e consciência negra. Quando cheguei ao Brasil, com 10 anos, fui morar em Natal até meus 12 anos, depois mudei para São Paulo. Então para a construção de Zambi tive toda a soma da preparação de elenco, afinidade com os colegas e construção do meu olhar em anos de vida e carreira me entendendo quanto corpo e alma africana e cidadão negro engajado nas questões de luta contra o racismo”, ressalta.

São quase 40 anos dedicados as artes, Bukassa foi lembrado por Gustavo Fernandez, diretor artístico da novela, assim que esse recebeu o projeto.

“Todos dentro da indústria no audiovisual brasileiro sabem de minha origem e história de alguma maneira. Isso dá uma grande relevância e legitimidade. Numa das conversas com o diretor artístico Gustavo Fernandez ele me disse: “Assim que chegou o projeto, disse que Bukassa teria que estar dentro”. Isso me deixa honrado, são anos de trabalhos e hoje um reconhecimento e respeito por partes muito importantes dentro da indústria no audiovisual brasileiro”, relembra.

Uma coincidência é que na trama faz par com a atriz Ana Cecília Costa, com quem já havia trabalhado em “Amor perfeito” em 2023.

“Tenho muito respeito e admiração pela Ana Cecília Costa. Adoro seu trabalho e acho que foi uma boa escolha da direção esse encontro. A gente conversa muito e acha os melhores caminhos para a construção de um amor profundo e paixão de um casal mais velho que se admira e enfrenta um mundo todo juntos. Portanto levamos para cena nossas experiências de vida para além da técnica. Cuidamos das nossas visões sócio-político e dos detalhes para humanizar a relação do casal interracial e a frente de seu tempo, nesses recortes dentro da narrativa”, revela.

O ator ainda destaca a forma como a novela retrata a história da negritude no Brasil, recorrendo a pesquisas de que a escravidão não é base real para validação da riqueza negra brasileira.

“Queremos com essa história devolver a dignidade e reconstruir as imagens negativas narradas por anos sobre a história da negritude no Brasil. Ao mostrar parte dessa fábula narrada com bases históricas e pesquisas de que a escravidão não é base real para validação da riqueza negra brasileira. Isso é um ótimo começo para a revolução na televisão brasileira. Certamente um divisor de águas nesse sentido. Estamos tratando a África (Batanga) e suas riquezas, começando pela Realeza, de forma positiva na trama. Dando visibilidade a mulher negra e corroborando para o investimento em um mundo imaginário que conversa com nossa realidade no mundo contemporâneo onde tivemos diversas lutas para tornar nossa sociedade mais justa e igualitária. Onde os abismos sociais estão atravessados por dores profundas, vestidas pela manta do racismo, seus recortes e privilégios da branquitude”, completa.
No streaming da HBO Max o ator dá vida ao Coronel Paulo Sampaio, pai do personagem de David Junior, par romântico da protagonista em “Dona Beja”.

“Ele é um homem rico que lutou com garras para manter a sua família forte e unida, mas as circunstâncias de um tempo difícil ao ver a família se desintegrar o levam as últimas consequências”, explica

Na história, ele é casado com Ceci (Deborah Evelyn), que é uma mulher guiada pelas aparências e que odeia Dona Beja (Grazi Massafera) por enxergar nela a liberdade que combate e atua para afastar o filho. Além disso, ela é racista, apesar de ter marido e filhos negros.

“Isso é muito mais comum do que imaginamos. Para responder isso eu devolvo com uma outra pergunta para elucidar o meu pensamento. Por acaso, dentro do casamento “heteronormativo”, os homens deixaram de ser machistas por serem casados com mulheres? No Brasil o índice de feminicídio está entre os mais altos do mundo. Algo intolerável em qualquer nível. Então a trama dá luz a algo muito comum e que precisa ser elucidado. As violências do racismo estão também dentro das famílias de casamentos interraciais, tal qual o machismo nos casamentos entre homens e mulheres. Isso precisa ser debatido e confrontado”, diz Bukassa sobre como essa trama debate esse tema em qualquer época.

O ator ainda fala sobre a interação com Deborah Evelyn e sua relação com ela.

“É uma grande relação de respeito mútuo e admiração. Entendemos juntos a necessidade de vestir os personagens com sua a complexidades para juntos e individualmente pudéssemos contar nossas histórias na trama. Adoro essa atriz experiente e incrível em tudo que ela faz. É uma honra trabalhar com ela. Sou muito grato”, diz.

Ele ainda fala sobre a versão da história, que teve uma primeira transmitida pela Manchete em 1986, e o papel dessa nova leitura.

“Acredito que queremos ressignificar o olhar para a mulher. Dando a protagonista caráter de heroína, trazendo visibilidade a uma mulher trans e colocando personagens negros em lugares destaque e protagonismo. Trazendo um olhar diverso ao significado de família… O que é e como pode ser uma família. O autor Daniel disse no lançamento em São Paulo que a versão anterior era “Dona Beija”, o que dava uma noção da mulher como desejo e objeto, já em “Dona Beja” ela virada substantivo, como uma pessoa e não um objeto. São escolhas com olhares focados num mundo de pessoas preocupadas em mudar paradigmas dos lugares injustos para mulheres, negros e indígenas. A arte nesse sentido pode ajudar contando de forma diferente a normalização da falsa ideia de que são grupos menos capazes e não merecedores de dignidade nas construções sócias”, observa.
Na Netflix ele vive Evenildo, um dos infectados na contaminação por Césio-137 na série “Emergência Radioativa”, que se inspira no caso real que aconteceu em 1987 em Goiânia.

“O Evenildo faz parte das pessoas que foram contaminadas pelo Césio-137… Ele, e sua família, tiveram perdas irreparáveis. Ele é dono de um ferro velho, uma pessoa ambiciosa que quer o melhor para seu povo. Toda a contaminação começa na casa dele, sem que ele saiba”, conta.

Na produção ele atua ao lado de nomes como Johnny Massaro, que protagoniza a história, Ana Costa, Paulo Gorgulho, Leandra Leal e Tuca Andrada. Ele é o mais velho de três irmãos, os outros são João e Darlei, vividos respectivamente por Alan Rocha e William Costa.

“Eu adoro Alan Rocha com quem já trabalhei em “Amor Perfeito” na Globo, William conheci nessa produção. Adoro trabalhar com parceiros negros porque acho importante não sermos apenas “UM”, precisamos ser plurais e múltiplos nessa saga que é colocar atores a atrizes negras dentro das visibilidades do mercado no audiovisual. Amei estar perto deles. Muita troca diálogo e respeito sem falar do afeto”, acrescenta.

O ator faz uma análise do seu momento atual no audiovisual, estando em três produções em diferentes streamings e na TV.

“Desde que fiz “El President”, na Amazon, ainda na pandemia, quando passei quatro meses no Uruguai e ao voltar para o Brasil até agora tenho emendado trabalhos sem parar. Acho que de alguma forma produtores de elenco, diretores e autores me reconheceram quanto profissional e ator, me dando cada vez mais espaço por mim conquistado e reconhecido pelo público a cada projeto de que posso contribuir para nossa cultura dentro da indústria. O que me fortalecer é convencer a me entregar cada vez mais para dar o meu melhor Excelência é um caminho individual e coletivo para nossas lutas e conquistas pra o povo negro. Aqui defendo brasileiros e africanos”, compartilha.

Além desses trabalhos, ele poderá ser visto em breve no filme “Narciso”, onde dá vida a um dos irmãos que cuidam do protagonista em um lar temporário.

“É um lindo filme de Jeferson De, um dos nossos maiores diretores de cinema. Joaquim é um homem simples que vive as dores do mundo com todos os nossos recortes. De forma altiva e positiva. Somos sobreviventes e sempre achamos no meio do caos um sorriso. Esse filme vai emocionar muita gente. Há uma delicadeza e beleza no trato do silêncio na interpretação, direção e fotografia”, afirma o ator.

O longa conta a história de um menino negro que vive em um lar temporário e que após ser “devolvido”, lida com a dor da rejeição e ganha um presente mágico de outra criança do orfanato.

“A trama também passa por isso. Mas acredito eu que ela nos mostra camadas profundas e complexas dos olhares desse menino em relação como o mundo se apresenta para pessoas negras. Então tem códigos e símbolos que nos atravessam e personagens que abraçam Narciso. Há ali nas linhas invisíveis da trama dores comuns dentro de silêncios e dores vividas por muitos. O filme é lindo e emocionante”, complementa Bukassa sobre como é contar a história de tantas crianças brasileiras que vivem em abrigos e enfrentam a dor da rejeição de suas famílias e a “dificuldade” em encontrar novos lares.

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